segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

MGTV - Ginastas Panamericano 2012

O Panamericano de Ginástica já passou, mas estamos aqui lembrando que um Ayres fez lá bonito, o Henrique Ayres, conquistando uma medalha de bronze no trampolim. Ele é trisneto de José Ayres de Lima, o Trançador-filho e Gervásia Maria da Conceição,  bisneto de José Ayres de Alzira Ayres, neto de Lindenberg dos Santos Ayres e Neide Ayres e filho de Fatima Ayres e Helcio.


domingo, 10 de dezembro de 2017

Saias ou calças? Curtas ou compridas? As regras (burladas) e o uso dos uniformes ao longo dos anos no Colégio Normal Santa Terezinha de Caxambu e nos tempos modernos



Curta ou comprida? E lá se foram os anos em que a Cristina ficava na entrada do segundo andar, controlando a cor dos sapatos, a transparência das blusas e o comprimento das meias e saias. Ao longo de sua existência, o Colégio Normal Santa Terezinha tinha lá suas regras e regras eram para serem... transgredidas. Não pelas alunas dos anos de 1957, quando os saiões eram beemm abaixo dos joelhos, quase no pé.

Nos anos 60 as saias subiram uns dois centímetros e as regras continuaram rígidas, e eram ainda obedecidas, até porque estávamos na Ditadura Militar. Permitidas eram as curtinhas, tanto as saias para  meninas e as calças para os meninos, no ano de 1966, no pré-primário (foto). Claudio e Turk Serabion, exemplares, ainda usavam shortinhos acima dos joelhos.

E foi na década de 70 que as meninas se rebelaram. E para "burlar" a vigilância, as saias eram mantidas até os joelhos no controle da entrada e depois eram enroladas na cintura e... voilà: ficavam curtinhas, mostrando as pernas. E a rigidez no comprimento e uso obrigatório das saias perdurou até o final da década de 1970, quando foi liberado o uso das calças compridas para as alunas. Usava saia quem queria. A minha sala adotou as calças compridas (foto abaixo). E, como vemos, na saia de Zeka Radife foi economizado pano (foto ao alto) deixando muita perna de fora. Uau! Bem, como nas saias das meninas sentadas na pose oficial da turma, nas escadarias do Colégio, também andou faltando pano para a saia da Toninha, Maria Antonia Muniz Barreto, e sobrando charme. Então o Colégio das irmãs foi extinto, melhor dizendo, passado para a inciativa do Estado laico. Entrávamos em outra era.


A complicada época das igualdades: saias ou calças? Quem veste o quê 

E a vida dos jovens nas décadas seguintes ficou mais complicada, ou digamos, complexa. A discussão agora não era o comprimento das saias e sim quem usa o quê. Em 2016 o Colégio Pedro II foi a primeira instituição de ensino da rede pública do Rio de Janeiro a dotar a flexibilização  do uniforme permitindo que os alunos e alunas usem o uniforme que quiserem: saia ou calça. A distinção do uniforme escolar por gênero foi abolida, baseada na portaria n° 2449/2016, que trata de Normas e Procedimentos Discentes, que tem por objetivo manter a identidade e igualdade entre os alunos.

A flexibilização do uso do uniforme atendeu a uma Resolução do Conselho Nacional de Combate à discriminação e Promoção dos Direitos de Lésbicas, Gays, Travestis e Transexuais (CNCD/LGBT), e assim com a iniciativa, a escola não fica desvinculada de seu tempo e momento histórico, segundo o reitor Oscar Hallack. “A tradição não importa em anacronia, mas pode e deve significar nossa capacidade de evoluir e de inovar”.

A Ideologia de Gênero (Queer Theory em inglês) defende que ninguém nasce homem ou mulher, mas que cada indivíduo deve construir sua própria identidade de gênero ao longo da vida. Em 2015 houve uma tentativa de impor, no Plano Nacional de Educação a adoção da Ideologia de Gênero, a adoção da Ideologia do Gênero, mas por mobilização de políticos, igrejas e instituições diversos estados excluíram o uso do termo em seus planos de educação.

Defesas de lá e de cá estava no cartaz escrito: “Pedimos respeito, pois, independente da minha roupa, não mereço ser assediada na rua, não mereço ser xingada, e não mereço ser ofendida”, afirmou uma aluna. Então aquele inocente fiu-fiu, da nossa época, que se entendia como elogio ou cumprimento, hoje, no politicamente correto, pode ser interpretado como assédio. Oh dia, oh vida! Vidas.

Longa demais, curta demais

Mas um pouco pra lá, no continente europeu, uma estudante francesa foi impedida de assistir às aulas, pois a direção da escola achou sua saia "muito longa". Ela é de crença muçulmana e, no caso, a saia longa foi considerada "um sinal ostensivo de filiação religiosa", assim como o lenço na cabeça. A França já proibiu, em outras ocasiões, manifestações religiosas nas instituições de ensino. Os prós reclamam que é discriminação disfarçada de pensamento pseudolaico. E nos EUA, uma outra estudante  foi suspensa por usar saia curta demais. O limite era 7, 5 cm acima dos joelhos. Oh!

Mas vou tomar emprestada, a frase que portava uma estudante na porta do Colégio Pedro II: “O tamanho da minha saia não define o meu caráter ou o nível da instituição que eu estudo”. Ah, meninas, não sei se a galerinha da década de 50, 60 iria ter coragem de dizer uma coisa dessas na frente da irmã Julieta, diretora, mas hoje o tabu foi quebrado. Ainda bem.
Fotos:
Arquivo privado da Família Ayres/ Lucinha Baião 
Fotos Antigas de Caxambu
Clair Bruno Cerny
Revisão:
Paulo Barcala

domingo, 3 de dezembro de 2017

Os beijus da Terezinha



Taí, falamos dos biscoitos Enganaquáticos (leiam aqui sobre a história dos aquáticos e dos biscoitos Enganaquáticos) da padaria do Seu Gabriel e Dona Boneca, e não poderíamos esquecer de falar de outra especialidade, degustada na minha infância e adolescência: os beijus feitos pela madrinha Helena, minha madrinha de Consagração, e suas filhas, a JulinhaCidinha e Terezinha (foto).  Eram simplesmentes deliciosos. Pude acompanhar de perto o processo de sua fabricação. Fogo de lenha aceso, calor intenso. Era verão e as meninas lá segurando o ferro redondo e plano, onde era depositada, cuidadosamente, com uma concha, a mistura de farinha, leite e açúcar. Com uma paleta de bambu, a mistura era espalhada homogeneamente na superficie do ferro quente. A dupla chapa quente era fechava, e em poucos minutos, virada. A mistura cozia sobre a chapa quente do fogão. Mais um pouco e... os beijus, ainda moles, eram enrolados, na sua forma final, com um garfo de bambu.

Outras especialidades 

Enquanto os bijús eram vendidos durante o dia, em frente a portaria do Parque das Águas, o algodão doce e as maçãs, naquele molho de groselha com casca dura, eram vendidos nas frias noites da Semana Santa, em frente ao Cinema, onde seu Dodô  tinha um dos seus pontos fixos de venda, e onde estacionava sua carrocinha de pipoca. No  fundo do quintal da família seu Dodo, onde cultivava o milho para a fabricação de suas pipocas, um milho pontinho, branco, diferente do cultivado para fazer fubá, corria o ribeirão Bengo. Nem sempre seu Dodô o tinha boa colheita.  O Bengo, que também corria no fundo dos quintais de vó Gervásia e da tia-vó Mariquinha, tornava-se um rio caudaloso, devido às torrenciais chuvas de janeiro, invadia a parte plana, onde se encontrava a  plantação de milho do seu Dodô, obrigando-o a fazer sua colheita mais cedo que desejado.  O milho era matéria prima para as pipocas, servidas em pacotinhos de papel de fabricacão caseira, em forma de cone, antes e depois das seções de cinema, ali na Praça 16 de setembro. Foi na carrocinha de pipoca do Seu Dodô que meu pai, José Ayres, e Arminda Maria da Conceição, minha mãe, marcaram um encontro, numa fria noite da Semana Santa, no início dos anos de 1950, bem ali em frente da Igreja Matriz
Foto:
Terezinha em seu ponto de venda, em frente ao Parque das Águas de Caxambu.
Arquivo privado de Juliana Alves
Revisão:
Paulo Barcala

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Janaina Ayres/ o futuro em suas mãos



Janaina esta concluindo o seu curso de um ano e seis meses na L`oréal, do Rio de Janeiro. Aperfeiçoar o seu trabalho e servir bem e com profissionalismo no Ayre`s Bella é sua meta.

"Se um dia quiser confiar em algo ou alguém, confie em você. Me lembro como se fosse hoje a primeira vez que entrei aqui, palestra informativa, redação e depois enfim matriculada e do grande obstáculo que teria a frente. Venci o cansaço, o financeiro, um medo que só eu e minha família sabe sobre mim, venci as críticas que ouvia antes mesmo de começar. Venci, venci e venci.

Agradeço primeiro a Deus por me conceder exercer mais um conhecimento, a minha família (filhos) e ao meu marido, que foi o meu grande incentivador e aos amigos que fiz nesta escola, vocês foram o melhores nesse tempo, quantas histórias, e quantas informação trocadas, à vocês também devo tudo isso.
Obrigado por acreditarem em mim!!!"

Janaina, que bom que você acreditou em você. O seu pai, Jorge Ayres esta agora sorrindo lá de cima.
Foto:
Arquivo privado de Janaina Ayres, via Facebook

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Hoje é dia de Graça!


Maria das Graças Pereira Silveira, a Graça, faz hoje aniversário. Não queremos saber quantos anos já se passaram, mas quantos anos ainda estão por vir. Feliz Niver Graça! É o desejo de todos os membros da Família Ayres, Pereira, Silveira e outros tantos sobrenomes.
Fotos:
Arquivo privado da Família Ayres/Silveira/Pereira

domingo, 26 de novembro de 2017

Voando para Caxambu/ A história de seu aeroporto


Caxambu tinha um dos melhores aeroportos de Minas, noticiava o Jornal O Patriota em júbilo. Sua inauguração oficial se deu no dia 29 de janeiro de 1951. Como sempre que é inaugurada uma obra de tamanho "vulto" e importância para a cidade, compareciam as autoridades e ... o "povo em geral". O aeroporto foi inaugurado um dia antes da posse do segundo presidente minero eleito, Juscelino Kubistchek, e foi um grande acontecimento também para as cidades vizinhas.

A história de sua construção começou no ano de 1938, no Governo de Benedito Valadares, interventor indicado por Getúlio Vargas, quando o projeto do futuro aeroporto de Caxambu foi encaminhado pelo Departamento de Aeronáutica Civil, o DAC, ao secretario de Obras Públicas de Minas Gerais. Os trabalhos foram coordenados pelo engenheiro Roberto Pimentel, chefe de Rotas e Circuitos do Departamento de Aeronáutica Civil, o DAC, e auxiliado por Mário Maneira, encarregado da supervisão dos campos de aviação da região.

Na época, o diretor do Departamento de Aeronáutica informou que não era possível a realização do projeto, pois não havia verbas necessárias. E como sempre acontece nos orçamentos, houve cortes nas verbas para outras obras, ocasionando a paralisação de vários projetos. O aeroporto de Caxambu tinha sido orçado em 40:000$000, mas ainda não tinham sido considerados os custos da limpeza do rio Baependi, as drenagens necessárias do campo, bem como o cercamento da área, além da sinalização. O DAC poderia apenas dar suporte técnico para as obras e nada mais. Então, Caxambu teve que esperar 12 anos pelo seu aeroporto.

Morro Queimado: 1 X Palmeiras: 0

E não há como falar de Caxambu sem que a vizinha Baependi seja citada em nossas histórias. Em setembro de 1949, às 22 horas e 30 minutos, sim, tarde da noite, a Câmara de Vereadores estava reunida para discutir assuntos de finanças quando o vereador Ciro Basílio leu um dos dois telegramas enviados para o Presidente da República, protestando contra a construção do Aeroporto de Caxambu no lugar denominado Morro Queimado. O argumento era que em Baependi havia lugar mais apropriado, chamado Palmeiras, e além do mais, a planta já tinha sido aprovada pelo "Ministério do Ar". Baependi teve sua planta aprovada, mas saiu Caxambu na frente. A cidade tinha chefes políticos mais fortes e argumentos que ninguém contestava: era uma das “hidrópolis” mais frequentadas não só por políticos de alto coturno, mas por turistas de todo o Brasil.

No mesmo ano, 1949, o prefeito Lysando Carneiro Guimarães foi a Belo Horizonte acompanhado do aviador Tenente Coronel Martinho dos Santos, caxambuense e filho do coronel Martinho Lício, que fez carreira política na cidade. Estávamos no governo Milton Campos e a política tinha outro regente. Eles foram assinar a escritura de doação dos terrenos para a construção do aeroporto e recebidos por outro tenente, Armando Trompowsky. Agora, sim, o aeroporto sairia do papel. Eles foram comunicados que as obras seriam iniciadas imediatamente, de acordo com as diretivas do Brigadeiro Luis Leal Neto dos Reis, comandante da 3ª Zona Aérea. O projeto já tinha sido aprovado pela Diretoria de Engenharia da Aeronáutica. Ufa! Morro Queimado: 1, Palmeiras: 0.

Perfeita em tudo

Em 1951, finalmente chegou o grande dia! Agora como vice-prefeito de Joubert Guimarães, Lisandro Carneiro Guimarães desceu dos céus num avião da Companhia Real, acompanhado de uma comitiva composta por muitos políticos e autoridades locais. O aeroporto foi obra de sua administração e Lysandro, o principal responsável pela sua concretização. Localizado na zona rural do município, numa altitude de 865 metros, o aeroporto fica a 11 quilômetros da cidade, e era acessado pela rodovia BR- 267, na altura do km 307, onde segue-se por uma estrada por cerca de 6 km.

Com uma pista de 1.300 metros de extensão e 12 metros de largura, sua construção era "das melhores", e... "perfeita em tudo", babava o jornal. Nela trabalharam os técnicos do Ministério da Aeronáutica, juntamente com a mão de obra local. Eles deveriam ter mais conhecimento que da primeira vez, em 1932, quando 150 trabalhadores rurais aplainaram, em 10 dias, o terreno a enxadadas. Dessa vez as máquinas utilizadas vieram especialmente do Rio de Janeiro para a realização das obras, e pertenciam ao Ministério da Aeronáutica. Mas, como obras são obras, a estação, o hangar e a pavimentação ficaram para depois. O pouso inaugural foi mesmo na poeira. Ah sim, inauguraram uma obra inacabada, como sempre. A empresa aérea Real ficou de instalar aparelhos de rádio e iluminação, indispensáveis em dias de mau tempo. Alguns jornais noticiaram que Caxambu inaugurou a... "pista de aterrissagem". Ah, e não era?

O objetivo da construção do aeroporto era a tentativa de ligar Caxambu às capitais do Rio de Janeiro e São Paulo e atrair mais turistas. A prefeitura tinha também como intenção atrair empresas de aviação para estender uma linha aérea entre as estâncias hidrominerais de Poços de Caldas e Araxá, interligadas com Rio, São Paulo e Belo Horizonte, dentre elas a Aerovias e a PANAIR estariam interessadas em fazer linhas regulares até Caxambu. Sem dúvida, era uma excelente ideia. As duas companhias aéreas que tinham seus escritórios na cidade já estavam usando a pista de terra: a Real, sediada em São Paulo, e a Nacional, com horários para Rio, São Paulo e Belo Horizonte. E, leitores acreditem: havia dias em que o tráfego aéreo era tão intenso que desciam 12 aviões, totalizando mais de 150 passageiros, somente para Caxambu! A cidade estava no auge e os hotéis, repletos de turistas.

Muamba aterrissa em Caxambu

Nem tudo que aterrissava no aeroporto era turista, gente fina e homens de negócios. Ah sim, eram homens de outros negócios, digamos. Em 1957, o aeroporto foi notícia nos jornais do Rio de Janeiro. Na ocasião, o avião Catalina, pertencente à Empresa Prospec e pilotado por Cesar Lopes Aguiar, transportava "instrumentos em desacordo com sua licença prévia para entrar no país". O avião, que se encontrava no Canadá para reparos, partiu de Otawa, em Ontário, e deveria fazer escalas em Miami, Trinidad, Caiena e Belém, antes de pousar no Rio de Janeiro. O piloto então desviou-se da rota prevista, aterrissando, contrariamente ao que fora determinado, em Caxambu. A mercadoria? 32 pacotes contendo, dentre outras coisas, canetas da marca Parker, pulseiras de relógio, diversos "toca-discos de alta fidelidade", que hoje ninguém sabe mais o que é isso, aparelhos de televisão portáteis, acessórios para rádio, um grande transmissor de avião e muitos outros objetos de valor para a época, que, segundo a polícia, eram procedentes dos EUA. As autoridades chegaram a tempo de prender parte dos volumes, abandonados no avião. A outra parte da carga já tinha sido recolhida pelos contrabandistas, que sumiram na estrada, sem dar chances de serem presos. O valor da mercadoria apreendida era de 3 milhões de cruzeiros. O avião ficou lacrado no Galeão até as "autoridades competentes" terem os papéis das mercadorias. Se acharam?

Digamos, quase perfeita

Com o passar dos anos houve necessidade de fazer reformas na pista "quase perfeita", inaugurada em 1951. Em 1988, o governo de Newton Cardoso liberou recursos e o aeroporto foi reformado, quando recebeu o nome de Aeroporto Fernando Levenhagen de Mello, nome do pai de Mauricio Guedes Mello, que ocupava na época o cargo de Secretário de Transportes de Minas.

Em 2014, o governo de Dilma Russef anunciou recursos para ampliação e reforma dos aeroportos regionais, e o de Caxambu estava na lista dos 13 aeroportos de Minas Gerais a serem reestruturados. Dentre as melhorias, a revitalização da pista, o pátio das aeronaves, nova sinalização luminosa, sistema de torre de controle e mais o setor de combate a incêndios. O projeto de ampliação foi incluído no programa de investimentos e logística para aviação, fazendo com que o aeroporto atendesse 32 cidades da região. Depois de reformado, poderia receber aeronaves com até 100 passageiros. Também estava previsto um terminal de passageiros de 700 m2. Uhg! 700 m2? Ai, não vou falar do transporte público, nem da pequenina e apertada rodoviária de Caxambu. Agora, falando sério, 700 m2 para uns poucos gatos pingados que aterrissam no aeroporto de Caxambu eram um exagero!

E o inferno está cheio de bem-intencionados. O ministro da Aviação Civil, Moreira Franco, no seu discurso, em Caxambu, declarava que o transporte aéreo era agora de massa, e não mais apenas para elite brasileira. "Não só as pessoas tiveram melhoria de renda, mas ao longo desses anos o preço da passagem de avião caiu. Hoje, se o brasileiro se programa, ele compra passagem (de avião) mais barata do que a de ônibus". Voar naquela época era não só coisa para os pássaros, mas também para aqueles que tinham dinheiro, hoje nem tanto.

Herói duas vezes morto

Ah, o Tenente O`Reilly? Nenhuma lembrança daquele Tenente aviador que, em 1931, sobrevoou pela primeira vez Caxambu e faleceu em acidente aéreo. O herói e seu feito foram esquecidos. O campo de pouso se transformou em aeroporto e agora tinha outro nome. O nosso herói O`Reilly estava duas vezes morto.
Foto:
Fotos Antigas de Caxambu
Fonte:
O Patriota, 1951
O Globo 2012
Correio da Manha, 1951
O Jornal, RJ, 1957
A Noite, RJ, 1951
A Batalha, 1939
Diário de Noticias, RJ
Revisão:
Paulo Barcala

domingo, 19 de novembro de 2017

O primeiro registro da Família Ayres /Rodrigues Freitas na Igreja Matriz Nossa Senhora dos Remédios de Caxambu



Por essas escadarias subiram e desceram os nossos ancestrais, batizados, casados, em vida ou amortalhados. A Igreja Matriz Nossa Senhora dos Remédios é, junto com a Capela de Santo Antonio do Piracicaba e a Igreja Matriz Nossa Senhora de Mont Serrat de Baependi, um símbolo para toda a família.

A primeira celebração  foi do batismo de José Ayres de Lima, o Trançador-filho, em 3 de agosto de 1873, na quase recém-inaugurada Igreja. E vinte e cinco anos pós, em 30 de janeiro de 1897, ele subiria o outeiro que circundada o templo para casar-se com a minha avó Gervásia Maria da Conceição,  tendo por padrinhos o irmão Manoel José de Lima e Camilo Ferreira Junior, o tio de vó Gervásia, filho de Sabina Maria da Conceição.  Em 20 de outubro de 1898, foi a vez de sua irmã Maria José Ayres de Lima, a Mariquinha, que celebrou o seu casamento, com Ramiro Rodrigues Freitas.

Até então, não havia nenhum registro de casamentos da família, mas com sorte alguém guardou esta foto: o casamento de Luiza Rodrigues de Freitas com José Matheus, descendo a histórica escadaria da Igreja Matriz, em 1940. Luiza era filha de Maria Ayres de Lima/Rodrigues Freitas, a  Mariquinha e Ramiro Rodrigues Freitas
Foto:
Arquivo privado da Família Ayres/Rodrigues/Freitas
Revisão:
Paulo Barcala

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Derby Caxambuense/ O Clube de Cavalos de Caxambu



Em 3 de fevereiro 1890 um grupo de caxambuenses e baependianos lança ações para criação da sociedade Derby, isto é, um Clube de Corridas de Cavalo de Caxambu, uma sociedade de apostas de corridas de cavalo, a primeira iniciativa no ramo. Como assim? Em Caxambu? Pois sim, Caxambu em 1890 teve um Derby. Não seria uma iniciativa parecida com nossa "Exposição" de hoje? Mais ou menos. A empreitada era mais direcionada para cavalos de corrida que uma exposição de animais como é hoje. A tentativa de fazer um clube de apostas como o Derby do Rio de Janeiro, em que políticos e barões frequentavam e apostavam, tinha a finalidade também de tirar os aquáticos da monotonia de tomar água e passear. Provavelmente o Barão de Maciel, Costa Guedes e os outros sócios da Companhia Águas de Caxambu e Contendas, cuja sociedade tinha acabado de fechar as contasem fevereiro de 1890, e transferidas suas ações, viu que o ramo de negócios poderia ser uma alternativa para a hidrópolis. Muitas das confabulações em prol da cidade foram feitas no histórico Casarão dos Guedes, marca arquitetônica do município.

Os Derbys

Mas vamos aos Derbys. O primeiro clube de corridas surgiu em 1825, no Rio de Janeiro, e reunia homens da política e do dinheiro, negociantes, quadros da aristocracia, os novos ricos. O "Derby" de Caxambu era homônimo do Derbi Club do Rio de Janeiro, presidido pelo engenheiro Paulo de Frontin, que foi senador, prefeito do antigo Distrito Federal e deputado federal. Um frequentador da povoação (foto 1, na fonte Dom Pedro abaixo), talvez tenha vindo daí a idéia de instalar um clube dessa natureza na cidade.

Os Derby tem origem na vila inglesa Derby, e estavam ligados aos acontecimentos esportivos  na região de Derbyshire nos anos de 1780. O nome esta associado às corridas de cavalo que promovia Edward Smith-Stanley.

O Turfe, assim chamado as corridas de cavalos, era a representação de que o Brasil estava entrando no "mundo civilizado", importando não só a moda e os penteados franceses, mas também as modalidades esportivas. Havia mesmo uma grande afluência de público aos hipódromos na capital,  e os frequentadores eram membros da família real e políticos da aristocracia social. A coisa toda era chic e os eventos eram abertos para o público em geral. Lá os homens apostavam e as mulheres desfilavam. Assim o Rio de Janeiro importava a moda da Europa e Caxambu copiava o Rio, até porque a hidrópolis era povoada nos verões, pelos aquáticos vindos de lá.

Foto 1: Paulo de Frontin em Caxambu, 1922; Foto 2: Paulo de Frontin chegando no Derby do Rio de Janeiro; Foto 3: Jockey, Foto 4: Sociedade do Derby, no Rio de Janeiro.
O Derby Caxambuense

Henrique Monat em seu livro "Caxambu" de 1894 escreve:

Triste impressão quando se contempla da estação aquelle valle; apenas à esquerda, ao longe, se avistam dous prédios amplos, em que parecer haver conforto, alegres, cercados de vegetação abundante; mais perto ve-se um prado, com a bandeira do Derby Caxambuense, elegante, a raia bem tratada, apesar das curvas rápidas.

Em sua primeira diretoria contava com de gente pra lá de importante: Torquato Junqueiro, como presidente, dr. Theofilo Maciel  vice-presidente; primeiro secretario, J. Alves Martins; 2° secretario, Joaquim Lopes; tesoureiro José Maria costa Guedes (foto 1). Havia também um procurador, José Borges, e um fiscal, João Chaves. As obras iriam se iniciar em fevereiro, no lugar chamado "Prado", onde hoje é o campo de futebol do Crac.

Antonio Torquato Fortes Junqueira (foto 2) graduado em direito, promotor público e juiz da comarca de Baependi, eleito deputado federal por Minas Gerais em 1893, assumiu a cadeira na câmara do Rio de Janeiro, permanecendo até 1896. Sua família era possuidora de fazendas onde cultivavam café e dedicavam à criação de cavalos;  Theófilo Maciel era médico, filho de Justo Maciel, criador de cavalos, vereador, presidente da Camara de Vereadores de Baependi e que fora também  eleito prefeito da cidade, cuja administração Caxambu estava subordinada, Costa Guedes (foto 1) comerciante português  e dono da Casa Guedes.

Os empreendedores, não podiam perder as chances de instalar um na povoação, até porque Caxambu estava em ascensão para ser uma das mais frequentadas estancias hidrominerais da época. Eles acreditavam que a hidrópolis podia ganhar dinheiro atraindo mais turistas para a cidade, enchendo os hotéis e ao mesmo tempo quebrando a falta do que fazer dos aquáticos. Tudo por Caxambu!

A iniciativa foi aplaudida pela imprensa, pois Caxambu contava na época com poucas opções de lazer. A povoação seria  um ponto para a exposição de animais, além do que era também de interesse dos fazendeiros da região o aprimoramento a raça dos seus plantéis de cavalos. O dr. Maciel e o Joaquim Lopes e J. Martins, membros da sociedade já tinham adquirido os seus, da linhagem de Lord Byron, Tópe, Wilna e Diva. Os nomes eram imponentes...

O "hipódromo" foi mesmo construído no terreno doado pelo político baependiano, que também tinha fazenda em Caxambu, Antonio Penha, sendo as obras inspecionadas pelo engenheiro Herculano Penna, encarregado da planta e nivelamento do terreno. A localização, o lugar denominado "Prado", segundo ele, era "magnifica".

A aventura equestre durou apenas 6 anos. Em 1° de outubro de 1896, a sociedade declara-se extinta. Acredito que o hipódromo não fosse tão chic, como o do Rio de Janeiro, pois o único bem, uma construção o "edifício do Prado", foi vendido. Na comissão liquidante estavam Dr Polycarpio ViottiJosé Maria Guedes e o político e delegado de polícia da povoação, capitão José Ribeiro da Luz Junqueira. O dinheiro arrecadado na liquidação, dois Contos de Reis, foi revertido em beneficio da Capela Nossa Senhora dos Remédios. Nada mais coerente com os princípios de época e das convicções do tesoureiro da instituição, Costa Guedes, tudo pela sua Capela e sua querida Caxambu.

O Derby Caxambuense foi o primeiro empreendimento deste  caráter na povoação, e talvez a semente plantada para a criação do Parque de Exposições José Braulio Junqueira de Andrade, este um dos criadores cavalos e, quem contribuiu para o aperfeiçoamento da raça Mangalarga no Sul de Minas. A história do desenvolvimento do Mangalarga tem origem ha 200 anos, quando os exemplares chamados "Álter" foram trazidos pelos portugueses e, cruzados com cavalos da região do Sul de Minas, originou um animal de porte médio, robusto e dócil. Hoje a raça conta com um plantel de 600 mil exemplares, a maior parte se encontra em Minas Gerais. Ah, mas essa já é outra história.
Foto: 
Jornal Gazeta de Noticias,
Revista Fon-Fon
Foto 2, da Net
Fazenda da Roseta/Arquivo
Arquivo privado da Familia Guedes
Fonte:
Site Crônicas e fotos de São João da Barra
O Baependiano
Gazeta de Notícias
O Pais
O Fluminense
MELLO, Victor Andrade, Possíveis representações sobre o Turfe na sociedade carioca do século XIX
Fundação Getulio Vargas
Agradecimentos:
A Paulo Maciel, Fazenda da Roseta.
A Izabela Jamal Guedes por dispor o acervo fotográfico da família para a ilustração dos nossos textos, bem como também a sua colaboração na recuperação da memória histórica da Família Guedes.
Revisão: 
Paulo Barcala

domingo, 12 de novembro de 2017

A Casa Oriental / Viúva Niman e Filho e a Família Ayres




A Casa Oriental faz parte não somente história da Família Ayres, mas também da história econômica e política da cidade de Caxambu. Em 22 de outubro de 1954, Arminda Maria Ayres fez lá suas compras e, na "Nota de Balcão", estava descrita  a compra de tecidos, seis botões e um carretel de linha, totalizando Cr$111, 30. Muitos anos se passaram e o recibo ficou guardado numa cadernetinha que achei nos pertencentes do meu pai e trouxe comigo para a Alemanha. Hoje, abri aqui a relíquia e... a Casa Oriental estava lá. E assim resolvi a escrever sua história.



Voltarei aqui citar David Nasser jornalista da Revista O Cruzeiro, ele também filho de imigrantes libaneses, que morou, até os 14 anos, em Caxambu. 

Tudo ali era português, a começar da loja dos Guedes e terminar no sonhador que descobrira as fontes de águas mineral, o Venâncio. Depois começaram a emigrar de Baependi os italianos- e Caxambu se encheu dos Viottis. Os sírios, os libaneses, os humildes turcos chegaram depois e o Bechara, o José Calil, o Abdallah, os Sarkis, mascates de uma genialidade itinerante que punha no chinelo a matreirice mineira foram os antecessores do meu pai no lugar.

O fim da escravidão e a mão de obra imigrante

No início da década de 1870 o Sul de Minas contava com uma população de 352.001 habitantes,  72.223 escravos, sendo assim a região com o segundo maior plantel de escravos da província mineira. A grande concentração de escravos tornou-se um problema para os seus proprietários e agricultores  antes, durante e após a libertação dos escravos e o tema era relevante nas discussões políticas feitas nos jornais. Assim o governo incentivou a imigração de estrangeiros, braços para tentar substituir a mão de obra escrava e também para "branquear" o país. Mas os argumentos não se concretizaram em estatísticas, pois os imigrantes não eram em grande número e os núcleos de colônias instalados na região não foram tão grandes. Também a utilização da mão de obra em fazendas particulares não vingou. Na verdade, a imigração para o Sul de Minas não foi tão significativa. De acordo com os relatórios oficiais do governo, assinalados por José Rufino Bezerra Cavalcante, entraram 2.433.167 imigrantes no pais entre os anos de 1891 a 1914. A metade deles foi para São PauloMinas recebeu apenas, 104.942 correspondendo a 4,3% do total de estrangeiros. Eles chegaram e foram para as terras compradas pelo governo, formando várias colônias. No inicio os imigrantes dedicaram a agricultura, e foram devagar ocupando o cenário urbano das pequenas povoações.

Do Líbano para Minas

Entre o final do século XIX e primeira metade do século XX chegaram ao Brasil numerosos imigrantes sírios, oriundos da cidade de Iabrud, cidade próxima a fronteira do Líbano, a 80 quilômetros de Damasco. 90% dos imigrantes entre os anos de 1890 e 1930, eram cristãos. 130 de sobrenome Arbex, segundo o Arquivo Nacional, desembarcaram no Porto do Rio de Janeiro. Eram homens, mulheres e crianças. Vieram em família ou jovens sozinhos, esperando fazer vida e fortuna no Brasil. Ha vários registros dos Arbex pelo interior de Minas, Três Corações, Luminárias, Lavras, Carrancas, Juiz de Fora, Cruzília e... Caxambu, na pessoa de Jamile Felipe Arbex/Niman. Pelo desconhecimento de geografia, "muitos dos imigrantes que partiram de Beirute, não estavam certos onde estavam indo, ou onde desembarcariam em definitivo. O fato de se dirigirem à "America", com as oportunidades que ela oferecia,, era tudo que os movia"(1). No assento de batismo de seu filho Nicolau Niman, datado de 26 de outubro de 1912, na cidade de Cruzília, consta que seus pais eram "naturais da Turquia Asiática", os "turcos-árabes", (denominação utilizada pelo Censo), uma simplificação, colocando imigrantes de diferentes regiões como "turcos". De fato, em Caxambu, para nós todos aqueles que não falavam a língua portuguesa eram considerados "turcos".

E Nasser acima nos dá uma pista: os imigrantes eram "mascates, de uma genialidade itinerante", isto é, vendedores ambulantes. O comércio de produtos de porta em porta era encarado como atividade temporária e o caminho natural depois de alguns anos, era a abertura de uma loja no ramo de tecidos, armarinhos. Na sua trajetória, os sírios dedicaram-se, em sua maioria, às atividades urbanas, principalmente, aquelas ligadas ao comércio, como aconteceu na família. Primeiramente os Nimans  foram recebidos pelo Barão de Maciel na  Fazenda da Roseta, e lá trabalharam por curto tempo, juntaram suas economias (foram também mascates?) e abriram um pequeno negócio em Baependi, por volta do ano de 1910. Era uma pequena casa de secos e molhados em Baependi e, mais tarde, no ano de 1919, vieram a se estabelecer em Caxambu.


1- A matriarca Chabuh Calil Jabur Arbex, mãe de Jamilie Felippe Arbex/Niman
2- Adelina Levehagen de Carvalho/Niman, Nicolau Niman e Jamilie, em Ubatuba
3 - Registro da Casa Oriental na coletoria de impostos de Baependi/Cruzília
4- Certidão de nascimento da primogênita Adelia Arbex/Niman
Jamilie Felipe Arbex, a viúva Niman

"Phosporos, calçados, chapéus, sal, velas, conservas, ferragens, louça e vidros, etc, etc.". Os artigos constavam do registro na Coletoria Federal da cidade de Baependi do ano de 1917, e nos diz o que era comercializado no armazém dos Nimans. Fundada em 1919 por Salomão José Niman e Jamilie Felipe Arbex Niman, a Casa Oriental teve o seu alvará de funcionamento em Cruzilia, que se chamada São Sebastião da Encruzilhada e na época pertencia à jurisdição de Baependi. Nos arquivos de Cruzília consta o nascimento do seu primeiro filho, Salomão. Eles tinham o "faro" para o comércio, e Caxambu prometia mais. A família e os negócios se mudaram no momento certo para a hidrópolis. A cidade viveria uma grande reforma urbana no governo de Camilo Soares (1912-1916), que a transformaria numa das mais belas e importantes estâncias de veraneio e veranistas de todo o Brasil.

Jamilie Felipe Arbex chegou solteira, em companhia de parentes e conhecidos da mesma cidade, e logo foi para a igreja para se casar com Salomão.  Não se sabe se eles se conheceram durante a viagem ou já se conheciam antes, pois procediam da mesma cidade, Yabrud. O dito foi que, se  o do casamento não desse certo, podia ser dissolvo, o que era uma bobagem, conta o neto Fernando Niman. Ainda bem que deu certo, retrucou ele. Infelizmente, em 1929, Salomão Niman veio a falecer em consequência de sequelas provocadas por um acidente, causando sua morte prematura. O acidente aconteceu quando foi ferido na cabeça, na escola na Síria. Assim foi contado na família.  

Então Jamilie Felipe Arbex Niman tomou a frente dos negócios junto com o filho mais velho Nicolau Salomão Ninam, que na época tinha 17 anos e não gostava de comércio. Na verdade queria ser carroceiro. Ah, os jovens! A loja  passou então a se chamar Viúva Niman e Filho

Jamille era uma mulher bonita, inteligente, independente e sofria com as insistências dos vendedores que a queriam namorá-la. O seu caráter foi moldado pelas dificuldades da vida. Era uma mulher objetiva, sem refinamentos, conta o neto, chegando mesmo a ser rude. Mas o que esperaríamos de uma mulher, no início do século, sozinha a criar seis filhos e ainda à frente dos negócios da família? Os desafios eram enormes e ela não teve outra alternativa que aceitá-los. Jamille veio a aprender o português muito mais tarde, com a professora Amélia Rosa "para ler a bíblia", na época do Mobral, pois até 1950 lia e escrevia só em árabe.

Histórias ou estórias da velha Malaquias / A demolição 

Foto 1: Nicolau Inca, Jorge, Luiz Brandao, José Miguel
Foto 2: Carros de boi para carregar e descarregar material da demolição.
Foto 3: A demolição 
Onde hoje funciona a Casa Oriental existia uma casa antiga com um grande terreno que, segundo contava uma figura folclórica da cidade, a velha Malaquias, ali fora a casa de nascimento de  Luiz Gongaza, o Rei do Baião. Ela era indignada, pois Gonzaga nunca citou o fato em sua biografia. "Ela tinha mil histórias" disse Fernando Niman. A história ou estória agora faz parte da lenda, e não ha provas concretas do fato. Gonzagão, oficialmente, nasceu em Exu, Pernambuco. O certo é que, em 1940, a família comprou o terreno e casa velha, onde a loja havia se instalado. Então o prédio foi demolido, e iniciada a construção da Casa Oriental como é hoje. O projeto arquitetônico foi do suíço Novak e a construção ficou a cargo do austríaco Rodolfo Weber, residente em Caxambu.

A construção

Foto 1: As obras em pleno andamento, foto 2: os operários,
foto 3: A primeira estaca batida e as bênçãos do padre José Leal,
Foto 4: as obras bem adiantadas, foto 5: a Casa Oriental pronta.
A viúva se empolgou com a arquitetura da construção no Hotel Glória Novo e convenceu o filho Nicolau Niman a contratar um arquiteto para o projeto do seu estabelecimento. Com as paredes postas abaixo, chegou o dia do padre José Leal benzer a obra, com a inauguração da primeira estaca batida no dia 7 de outubro, uma quinta feira, às 16:30 horas. Presentes arquiteto Novak, o mestre de obras Rodolfo Weber, seu Amancio, José Rafael, que me tinha alugado parte de sua loja, em frente às obras, para que a Casa Oriental continuasse a funcionar.  Mas, como o mundo estava em guerra, as obras se arrastaram por cinco anos. Faltava tudo, inclusive cimento para a construção. Ao lado prédio da loja, foi construído o Hotel Oriental  que funcionou de 1945 a 1950.

100 anos de história/ De caixa de fósforos, pregos, velas e fumo à bolsas da Prada italiana

Se formos somar, a família e a Casa Oriental passaram pelos mais importantes acontecimentos históricos do Brasil dos últimos 100 anos. A primeira Guerra Mundial de 1914, a crise econômica de 1929, quando da queda da Bolsa de Nova York, a ditadura de Getulio Vargas, na década de 1930/40, a segunda Guerra Mundial de 1945. No auge da economia caxambuense, quando a cidade fervilhava de turistas, a casa chegou a vender produtos da marca Prada italiana! Altas marcas, altos preços! Claro que havia público para os artigos de luxo. Estávamos no auge das estações de veraneio e os cassinos funcionando a todo vapor. Com a proibição do jogo  no Brasil, em 1946, pelo presidente Eurico Gaspar Dutra, os hospedes e clientes bem aquinhoados debandaram. Os artigos de luxo, excluídos do sortimento, e o hotel ao lado da loja não era mais rentável, sendo transformando em residência da família.

Nos anos 1980, com a fabricação de roupas em massa, as costureiras não eram mais requisitadas, nem os tecidos da Casa Oriental, assim tiveram novamente que se adaptar ao bolso dos seus clientes. E pensar no borrador do Armarinho  e na lista das mercadorias exóticas para a modernidade de hoje como talco, tecidos, pregos, lampiões, chapéus, velas, fósforos. Hoje a casa se concentra nos produtos de tradicionais de cama, mesa, banho, confecções e roupas íntimas e conserva ainda o seu caráter de empresa familiar.

Neste histórico estabelecimento minha mãe comprava tecidos para confecção dos uniformes escolares, bem como cobertores, colchas, lençóis e enfeites para a árvore de Natal e... carréteis de linha e botões (foto). O vendedor preferido pela minha mãe era o sempre prestativo e paciente  Onofre Edson dos Santos, quem a gente chamava de Tenório, funcionário "quase" antigo como a casa. Entrou la com 12 anos de idade e saiu vovô, conta Fernando.

Os filhos, como em todas as famílias e gerações tiveram outros planos. Dos filhos de Jamile e Salomão, um se tornou dentista, o Doutor Niman,  outro advogado, Jorge Niman, e foi para o Rio de Janeiro; outro ainda, José Niman, taxista, que permaneceu em Caxambu; Adelia, que se casou e se tornou dona de casa mudando para São Paulo. Mas Cecília Niman, que trabalhou como  professora, não resistiu ao chamado dos negócios, pois estava no sangue. Ela fundou a Casa Vitória, em São Lourenço, também um empreendimento familiar e já assumida pela 3a geração, assim como a Casa Oriental, em Caxambu, que tem à frente Fernando Niman, também na 3a geração.
Desejamos que a Casa Oriental continue servindo aos seus clientes e continue a escrever a história econômica da cidade de Caxambu.
Fotos:
Arquivo privado da Família Ayres
Arquivo privado da Família Niman
Anuncio do Contrato  com a Companhia de Imigração e Colonização Mineira, in O Baependiano, 1889.
Fonte:
Casa Oriental/Face Book
Página da Familia Arbex net
Truzzi, Oswaldo - O lugar certo na época certa: sírios e libaneses no Brasil e nos Estados Unidos- um enfoque comparativo.
Dornelas, Juliana Gomes -  Na America, a esperanca: os imigrantes sirios e libaneses e seus descendentes em Juiz de Fora, Minas Gerais (1890-1940), Juiz de Fora, 2008.
Junior, Paulo de Souza- Ocupação Urbana do Município de Araxá do século XVII ao início do século XXI, Araxá, 2008.
Castilho, Fabio Francisco de Almeida, in A transição da mão de obra no Sul de Minas: o braço imigrante e nacional nos periódicos locais, 2011.
Revisão:
Paulo Barcala
Agradecimentos: 
Agradecimentos muito especiais a Fernando Ninam pelas preciosas informações e as belas fotos do arquivo  pessoal da Família Niman, que ajudaram a escrever este texto.

Façam uma visita virtual: Casa Oriental em Caxambu

domingo, 5 de novembro de 2017

Os históricos bancos do Parque das Águas de Caxambu/Sentando na história


Leitores, abundem-se! Hoje vamos mostrar onde e como se sentavam os visitantes do Parque das Águas de Caxambu ao longo do século. Por onde hoje vocês põem suas bundas no Parque, apostem: é tudo  histórico. Ou se descansando das caminhadas ou simplesmente se sentando para contemplar o verde, os bancos são um lugar para tomar fôlego e... empreender nova caminhada. Os belos bancos de alguma forma sobreviveram ao tempo e às... bundas, claro. Neles sentaram políticos, industriais, artistas, gente rica, banqueiros - daí vem a palavra "banco"-, gente pobre, gente de todas as cores, gente vinda de todo canto do Brasil e do mundo. Os bancos eram e são democráticos, aceitaram e aceitam qualquer bunda.


Os bancos preferidos para uma boa fotografia, no início do século, eram os do artista Chico Castanheiro, inconfundíveis, imitando troncos de madeira, confeccionados com uma liga especial  de argamassa e óleo de baleia. Na verdade eles quase não aparecem nas fotos, soterrados que estavam debaixo dos traseiros suportando todo aquele peso. Na sua grande maioria os fotografados aparecem sentados, mas também, criativamente, em uma pose de pé e com flores nas mãos. Ha também bancos em cimento, em madeira e ferro de desenho simples, mas muito resistentes.


O Parque tinha acabado de ser embelezado, os quiosques das fontes construídos e os turistas vinham em enxames para cidade. Mas a partir da década de 1920 os bancos quase desaparecem do cenário das fotografias, pelo menos as publicadas na Revista Fon-Fon.  A exceção se fosse algum famoso, como Rui Barbosa e família (foto acima), em 1922. A novidade agora era o Balneário recém-construído, e cabia muito mais gente sentada em suas escadarias. Da década de 1940 em diante os bancos e os "aquáticos",  desapareceram por completo do cenário fotográfico da revista.


Enfim, os bancos aguentaram até os nossos dias.  Até que... Por favor, não chorem, este foi o estado que ficaram os bancos da Fonte Mayrink, na depredação ocorrida em 2015, naquela fonte onde as águas são boas para os olhos.


E o que vocês estão esperando? Corram para o Parque e procurem um banco na sombra dos plátanos e sintam o gosto de estarem sentados na história. Ah, meu povo, ajudem a preservá-los.

Haverá sempre um bom motivo para posar sentado nesses maravilhosos bancos que contam, contaram e contarão histórias, não é Graça Pereira Silveira e Vander Silveira?


Fotos:
Solange Ayres (ao alto, o banco de argamassa do Chico Cascateiro), todas as outras fotos são de autoria de Haroldo Kennedy.
Graça Pereira Silveira
Fotos da depredacao: Blog do Madeira
Revista Fon Fon
Agradecimentos:
O Blog da Família Ayres agradece Haroldo Kennedy que, na sua visão única, fotografou e fotografa o Parque das Águas de Caxambu e nos autorizou a publica-las. Suas fotos são obras primas.
Revisão:
Paulo Barcala

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Caxambu e sua Igreja Luterana /500 anos da Reforma Protestante


No dia 30 de outubro de 1517 lança Martin Lutero (1483-1543) as 95 teses pregadas na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg, na qual questionava os eclesiais pela venda de indulgencias em troca do perdão dos pecados. O que fora uma crítica, um convite ao debate, soou como afronta aos eclesiais. As Teses foram logo traduzidas e amplamente copiadas e impressas e se espalhou pela Alemanha e Europa. Assim se colocava o primeiro divisor de águas entre a Igreja Católica e a futura Igreja Luterana. Dentre as características da Igreja Luterana, o consentimento do casamento entre padres e freiras, como ele mesmo o fez, desposando a ex-freira cisterciense, Catarina von Bora.
Foto:
Solange Ayres
Igreja Protestante de Caxambu

domingo, 29 de outubro de 2017

A Igreja Matriz Nossa Senhora dos Remédios de Caxambu/ Sua história


Uma sensacional descoberta!

Numa foto datada de 1868 (acima), e postada no "Fotos Antigas de Caxambu" por Ruth Villara Viotti, uma informação muito importante já ia "passando batida". Quando observando no detalhe, veio a surpresa: As anotações de seu pai, Rangel Viotti. Pronto! Seguimos a pista. Lá no alto a capelinha! Rangel Viotti fez anotações num livro daqueles que estavam depositados na garagem de sua casa, debaixo das caixas e daquela papelada toda. Que sorte! Ruth fotografou e postou no Facebook. Constava: - 6 Casa Guedes, - 7 Colégio Santa Terezinha, 8- Igreja. Com esses três elementos arquitetônicos, não temos nenhuma dúvida de que se trata do mesmo lugar: o largo da Igreja, onde hoje fica a Igreja Matriz, o Colégio Normal Santa Terezinha e o Casarão da Família Guedes.

A foto havia sido publicada no livro do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas de Alpheu Gonçalves Diniz, em Aguas mineraes do Brasil, no ano de 1936. Mas, bem antes, ela fora também publicada no livro Caxambu, de Henrique Monat, em 1894. Essa foto não tem nenhuma semelhança com as demais registros da Igreja. Como vemos, há uma Capela bem simples, sem torre nem sinos. Sua construção, situada no outeiro, acima da Casa Guedes, possui uma grande porta central e uma pequena porta lateral. Este é então o mais antigo registro da Capela Nossa Senhora dos Remédios até agora. 

Senta que lá vêm os fatos

Foi nos idos de 1743 que Estácio da Silva solicita a permissão para a construção de uma capela em sua propriedade, na chamada Fazenda do Caxambu, freguesia de Baependi, ao Bispado do Rio de Janeiro, pois, até aquela data, a diocese "dava obediência ao Bispado do Rio de Janeiro" (1)

Nos registros das Instituições e Igrejas do Bispado de Mariana consta: 116 — Caxambu. Capela "na fazenda do Caxambu, freguesia de Baependi", erigida a pedido de Estácio da Silva por provisão episcopal de 8 de junho de 1748, 5 anos da data do pedido. A autorização foi assinada pelo primeiro bispo de Mariana recém-empossado, Dom Frei Manoel da Cruz, no mesmo ano. Naquela época Caxambu ainda não existia, e nem se sabia da existência das águas milagrosas, escondidas na mata, borbulhando no pântano, ao pé do Morro. O morro sim já era conhecido entre os viajantes e bandeirantes desde 1700, por Morro do Caxambu (leia aqui a história completa do Morro de Caxambu). Somente duas fazendas eram conhecidas: a do Palmital e a de Estácio da Silva, denominada Caxambu. E como tudo que acontecia girava em torno das igrejas, a capela se tornaria o centro da povoação, ajudando a escrever a história das "Águas do Caxambu".

"... foi-lhe concedida permissão para edificar a capela dedicada a N. Sra da Conceição, em sítio a ser assinalado pelo vigário de Baependi. Construída a capela, preferiu o fundador dedicá-la a N. Sra dos Remédios, que passou a ser o orago, de acordo com a concessão diocesana"(3). Mas teria Estácio da Silva construído a capela? E onde? Então veio a resposta.

Os primeiros protagonistas e seus destinos



Em 30 de novembro de 1752, falece o Coronel Estácio da Silva, aos 52 anos de idade (óbito acima), deixando a viúva Maria Vitória Vajana como herdeira. No testamento, seu desejo para que fossem rezadas três missas à Nossa Senhora dos Remédios. Em 5 de outubro de 1756, Maria Vitória também vem a falecer, oito anos após a solicitação do seu finado marido para a construção da Capela, deixando como herdeiro universal e consequente suas propriedades (testamento abaixo) o seu segundo marido, João José Pinheiro. No inventário, o viúvo declara que Maria Vitória Vajana faleceu "estando doente de sobreparto" (1), isto é, complicações pós-parto. Seus bens inventariados: um sítio em que morava chamado "Caxambu", no Caminho Velho, freguesia de Baependi.

Consta da lista n° 116 no "Instituições de Igrejas no Bispado de Mariana": Caxambu: Capela na "fazenda do Caxambu, freguesia de Baependi", erigida a pedido de Estácio da Silva por provisão episcopal de 8 de junho de 1748.

O Cônego de Mariana, Dom Frei José da Santíssima Trindade, na primeira de suas cinco "visitas" feitas às igrejas e capelas no interior da província, passou por Baependi em 3 de maio de 1824. No registro publicado, em 1838, constavam somente as seguintes capelas filiais da Igreja Matriz Nossa Senhora de Mont Serrat: Santo Antonio do Piracicaba, São José do Favacho, atual Cruzília, e Conceição do Rio Verde. Sobre a suposta capela Nossa Senhora dos Remédios, do Caxambu, nenhuma palavra. Escrever requerimento solicitando a construção da capela era uma coisa, agora construí-la era outra e, mais ainda, mantê-la em pé. Se, nos lugares onde os fazendeiros eram mais abastados, as construções se arrastavam por décadas, o que dizer de uma capela a ser construída na quase inexistente povoação?

Analisando os mapas

A informação contida na Revista Brasileira Geográfica, de 1940, relata Virgilio Correia Filho no capítulo "Caxambu": "As suas edificações alongam-se pelo vale, onde começam, como ainda atestam os casarões em ruínas, adiante da Matriz, que ostentam na fachada a data de sua construção, em 1871, e já sobem pela encosta."
No Dicionário Geográfico do Brasil, publicado em 1894, escrevia Alfredo Moreira Pinto: "Em 1872, levantou-se no centro da povoação uma pequena capella dedicada a N. S. dos Remédios, que é o orago deste florescente logar" (recorte abaixo). Outra afirmação: Segundo o reverendo Lefort, guardião dos registros paroquiais de Campanha: "Só em 1872 é que aparece pela primeira vez o nome Capela, prova de que foi ela construída nesse ano."


E, somente no ano de 1873, segundo "dados fornecidos pelo Coronel Fulgêncio de Castro", a "Igreja" constou na planta da povoação Águas Virtuosas de Caxambu, assinado por José Pinheiro da Fonseca Silvares (foto), sendo o terreno ao lado reservado para a "Eschola", a futura Escola Normal Santa Terezinha.

Quem procura acha... Dois mapas nos deram uma pista. A Capela ainda não existia no mapa à esquerda, datado entre 1861 e 1865, projetado pelo engenheiro J. A. Barbosa. Ha somente um quadrado como "terreno reservado", não constando nenhuma capela ou construção. Já no ano de 1873, a "Igreja" e a "Escola" aparecem num outro mapa ( à direita). Vamos adiante...

Era a capelinha da foto ao alto a que foi erguida por Estácio da Silva? 

Aqui uma explicação para o destino da Capelinha, da qual não se tinha notícia precisa até agora, a não ser que foi dada a autorização para a sua construção em 1748, nas terras de propriedade de Estácio da Silva, na Fazenda do Caxambu. Sem as anotações de Rangel Viotti, pai de Ruth Viotti, não teríamos despertado a atenção para a pequenina construção no alto da colina.

O texto extraído do livro "Instituições de Igrejas, Bispado de Mariana", publicado em 1945, expõe as dificuldades de preservação do antigo patrimônio eclesial.

"A deficiência de informes seguros sobre as datas e as circunstâncias em que foram edificados e decorados tantos dos monumentos artísticos daquela região do país, inclusive alguns dos mais importantes e significativos, tem causado prejuízo muito grave aos estudos empreendidos até agora acerca da história da arte no Brasil. Em verdade, o acervo de obras de arquitetura religiosa existente em Minas Gerais é por certo o mais vasto e talvez o mais característico que possuímos. Ali, de fato, segundo Lúcio Costa, "a febre de construções, logo na primeira metade do século XVIII, foi verdadeiramente extraordinária, chegando a parecer espantosa a rapidez com que se ergueram, em substituição às primitivas capelas provisórias, capelas definitivas e matrizes de madeira e barro, algumas ainda trabalhadas no estilo seiscentista, outras no estilo profuso e pletórico característico daquela primeira metade do século XVIII.”

Não há sombra de dúvidas de que a foto ao alto comprova que a capelinha foi construída antes de 1868, ano em que foi feita a foto. Lá está ela, construída no mesmo lugar onde hoje se encontra a Igreja Matriz. Entretanto, parece que esta pequena capela foi derrubada para dar lugar à denominada Capela Nossa Senhora dos Remédios, com duas portas laterais (foto abaixo).

Capela curada

Construída a capela, agora faltava somente o capelão. Ela contava com os donativos dos mais abastados, como o Barão de S. Victor, que soube da iniciativa de José Maria Costa Guedes e "oferece-se para mandar a prontificar o Álbum a suas expensas". 

Em 1883, reclamava o jornal O Baependiano da falta do capelão e pedia auxílio aos cofres públicos "que lhe poderá ser concedido elevando-se a capella a categoria de capella curada".

Mas o que seria uma capela Curada e o que significava para a povoação? Capela curada era um título oficial dado pela Igreja Católica a uma vila com determinada importância econômica e populacional que tivesse uma capela com celebrações realizadas, regularmente, por um pároco. A obtenção desse título era fundamental para o desenvolvimento das aglomerações urbanas, e era mais um passo para se criar uma Freguesia.

No Brasil Colonial, até a data da Proclamação da República, para que houvesse o reconhecimento de um povoado, era necessária a autorização integrada dos poderes do Governo e da Igreja. Com o aumento da população, os seus políticos e moradores poderiam solicitar à Assembleia Provincial a criação de uma Freguesia, o mesmo que Paróquia, o que aconteceu com a de Nossa Senhora dos Remédios em 16 de novembro de 1875, pela lei Provincial n°2157.

Com a Proclamação da República, em 1889, houve a total separação entre Igreja e Estado, e seus municípios se tornaram autônomos. Não esquecemos que a religião católica, no tempo do Império, era a religião oficial do Estado e este tinha o dever de pagar salários aos padres e bispos.



O dedicado José silveira Nogueira da Luz foi também o responsável pela aquisição do órgão da igreja. Ele empreendeu a dura viagem até a Corte do Rio de Janeiro, em 25 de janeiro de 1887, para a aquisição do "Harmonium", como era chamado, que chegou em 6 de março do mesmo ano. Veio dos Estados Unidos! Chique. Espero que ainda esteja lá!

Em 9 de outubro de 1892 a capela sofreu modificações e foi lançada a pedra fundamental para erguer a Igreja Matriz. Em 1900, temos notícias de que as obras estavam em andamento. O jornal O Apóstolo noticia que "as obras da nova Matriz do logar, egreja que vae sendo construída a esforços do Rvn. Vigário José Silveira Nogueira da Luz". Na verdade, a Igreja já existia. O que ocorreu foram modificações substanciais no prédio. As duas portas laterais foram substituídas por uma porta central; a torre do campanário tomou outras formas e as janelas adquiriram formas neogóticas. Suas obras foram concluídas em 1º de janeiro de 1906 (foto acima), sendo o padre José Silvério Nogueira da Luz o idealizador e responsável por elas.

De volta com a pracinha!


Todos os esforços em prol de melhorias da Capela não foram em vão, exceto um: os esforços de um padre de pôr abaixo a histórica Igreja. No final da década de 1970 ele resolveu porque resolveu construir uma hipermoderna igreja, cheia de vidros. E, o pior, convenceu parte da população para o feito, que via no padre uma liderança na cidade.

Pois bem, ao que as primeiras estacas foram cravadas no chão duro, a velha Igreja tremeu. Com o perigo de desabamento, as obras foram suspensas e ela foi salva. O padre que teve a (péssima) ideia não tinha noção de estética nem de patrimônio histórico e, pior ainda, deixou seus "rastros". A bela escadaria deu lugar a um prédio que destoa do conjunto arquitetônico, embora a fachada tenha sido modelada em estilo da Igreja.

Mas acredito que o maior problema de tudo foi e é a falta de conhecimento da história dessa Igreja por parte dos caxambuenses. Se eles soubessem do seu passado, talvez pudessem ter evitado o que aconteceu, e a linda pracinha ainda estaria lá, ou ainda poderia ter sido restaurada, como fez o seu Costa Guedes em 1885, removendo terra e plantando árvores. Ficaríamos ainda gratos aos padres de boa vontade se um dia restaurassem a escadaria e a antiga pracinha em frente à igreja. Seria um acontecimento histórico para a cidade. Sonhar não custa.



Fonte:
Projeto Compartilhar (1)
IBGE: Caxambu, Minas Gerais (2)
Carvalho, Francisco de Assis - Entre a palavra e o chão: Memória Toponímia da Estrada Real, São Paulo, 2012 (3)
Jornais: O Baependiano, O Bohemio, O Patriota
Instituições e Igrejas no Bispado de Mariana, Cónego Raimundo Trindade, in Sphan, Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, 1945.
Curia Diocese de Campanha(4)
Dicionário Geografico, 1894
Wikipédia
Familia Search
Leme, Luiz da Silva Gonzaga, Genealogia Paulistana, 1905
Fotos:
Arquivo privado
Fotos antigas de Caxambu
Foto: Graça  Pereira Silveira
Agradecimentos:
Agradecemos ao ARQUIVO HISTÓRICO DO EXÉRCITO (AHXE), DIVISÃO DE HISTÓRIA E ACESSO A INFORMAÇÃO (DHAI), na pessoa do Major Ferreira, que colocou à disposição do nosso blog vários mapas.

Todos os direitos são de propriedade do Blog da Família Ayres, nas pessoas de Graça Pereira Silveira Solange Ayres. Reprodução na integra ou em parte do texto somente com autorização das pessoas citadas.
Edição: 
Paulo Barcala​